Nesta data celebra-se o Dia Internacional do Fóssil, uma iniciativa da International Palaeontological Association. Na SPdP - Sociedade Portuguesa de Paleontologia assinalamos este dia com um texto da autoria da Catarina Caprichoso (Universidade de Coimbra e Conselho Fiscal da SPdP), que recupera a história atribulada de uma espécie descrita há quase 150 anos.
Este fóssil é o nosso “fóssil do ano” e a “mascote” do nosso encontro deste ano 2026, o V PaleoPT, no dia 24 de outubro na Lourinhã (Ilustração pela paleoartista Mafalda Paiva baseada em uma imagem da Catarina Caprichoso).
De França a Portalegre: a atribulada história de Gerastos oehlerti (Bayle, 1878)
“Proetus oehlerti”: assim batizou Claude-Émile Bayle (1819–1895) uma nova espécie de trilobite proveniente dos calcários de Néhou (Manche), do Praguiano de França. Hoje conhecida como Gerastos oehlerti, após sucessivos reenquadramentos taxonómicos, a espécie teve um começo pouco habitual: Bayle (1878, est. 4, figs 18–21) ilustrou-a, mas não deixou qualquer descrição que acompanhasse as figuras (Figura 1).
Figura 1. Ilustrações originais de “Proetus oehlerti” de Bayle (1878, est. 4, figs 18–21).
Perante essa ausência, coube a Oehlert (1886, pp. 10–12) apresentar a primeira descrição formal da espécie. Para além da localidade-tipo, reconheceu-a também na pedreira de Vaux-Michel, perto de Brûlon (Sarthe), cuja proveniência tem, aliás, uma pequena história. O exemplar tinha-lhe sido enviado juntamente com outros fósseis recolhidos em Sablé, mas a sua presença nessa localidade causou-lhe estranheza. Informações posteriores confirmaram as suas dúvidas: o exemplar tinha sido descoberto, afinal, em Vaux-Michel, num nível estratigráfico ligeiramente inferior. Oehlert ilustrou um exemplar desta localidade (op. cit., est. 1, figs 8–9). O mesmo autor referiu ainda possíveis sinonímias com exemplares anteriormente identificados como “Proetus cuvieri” (Rouault, 1847, p. 320; Verneuil, 1850, p. 778) ou considerados próximos dessa espécie (Tromelin & Lebesconte, 1876, p. 612). Contudo, tratando-se apenas de listas de fósseis, estes trabalhos não permitem hoje confirmar essas identificações.
Algumas décadas depois, Collin (1912, pp. 279–280) ampliou consideravelmente a distribuição conhecida da espécie, identificando-a no Eifeliano de Teven, Le Fret e Saint-Fiacre (Finisterra) e citando ainda ocorrências em Saint-Jean-sur-Mayenne e La Bacconière (Mayenne) e nos calcários de Bois-Roux e Izé (Ille-et-Vilaine). Com reservas, admitiu também a possibilidade da sua presença no Givetiano e no Frasniano de Rostellec (Finisterra). No início do século XX, Gerastos oehlerti parecia, assim, reunir condições para se tornar uma espécie com interesse bioestratigráfico no Devónico francês.
Nas décadas seguintes, a lista de ocorrências continuou a crescer. Renaud (1930, pp. 265–266, est. 5, fig. 6) identificou e ilustrou um novo exemplar proveniente dos calcários de Bois-Roux (Ille-et-Vilaine). Trinta e cinco anos depois, voltou a reconhecer Gerastos oehlerti, desta vez na margem norte da Rivière du Faou, na Finisterra (Renaud, 1965, p. 81, est. 1, fig. 1).
Foi Jean Pillet (1920–2016), médico de formação e paleontólogo nas horas livres, quem voltou ao material original de Bayle e reviu a espécie (Pillet, 1969). E encontrou um problema: aquilo que desde 1878 tinha sido apresentado sob um único nome não correspondia, afinal, a um único táxon. Para ele, claro. Pillet distinguiu três taxa entre os espécimes que constituíam o material-tipo: Proetus (Proetus) oehlerti Bayle, 1878 (Bayle, 1878, est. 4, fig. 18), Proetus (Proetus) baylei Pillet, 1969 (Bayle, 1878, est. 4, figs 19–20) e Proetus (Proetus) aff. baylei Pillet, 1969 (Bayle, 1878, est. 4, fig. 21). Embora não apresentasse uma comparação direta entre as duas primeiras espécies, figurou exemplares atribuídos às três formas (op. cit., est. 16, figs 1–8, 9–11, 12–14; Figura 2). No mesmo trabalho (op. cit., p. 627), Pillet atribuiu ainda a Proetus (Proetus) oehlerti os exemplares ilustrados por Renaud (1930, 1965) e, embora com algumas reservas, um conjunto de exemplares portugueses figurados por Rodríguez-Mellado & Thadeu (1947, est. 3, figs 9–11, não 8?), provenientes do Emsiano superior de Portalegre (Formação Porto da Espada).
Figura 2. Ilustrações de Proetus (Proetus) baylei de Pillet (1969, est. 16, fig. 9), Proetus (Proetus) aff. baylei (op. cit., est. 16, fig. 12) e Proetus (Proetus) oehlerti (op. cit., est. 16, fig. 1).
Na dança da taxonomia, a história ainda não tinha terminado. Poucos anos depois, Pillet (1972) enquadrou oehlerti em Gerastos (Gerastos) e baylei em Gerastos (Bohemiproetus). A taxonomia também tem as suas modas – e épocas mais ou menos conservadoras – mas o resultado era agora particularmente curioso: material que Bayle tinha reunido sob um único nome científico acabava distribuído em subgéneros distintos.
E depois, silêncio.
Subitamente, o nome praticamente desapareceu da literatura científica. Durante mais de quatro décadas, Gerastos oehlerti ficou sem novas menções, sem revisões e, aparentemente, sem ninguém que lhe prestasse grande atenção.
É provável, contudo, que não tenha desaparecido completamente – apenas o nome. Os exemplares identificados como Proetus (Gerastos) sp. 1 por Morzadec (1983, p. 112, est. 2, figs 1–3), provenientes do Emsiano superior da Formação de Le Fret (Finisterra), poderão representar G. oehlerti, tal como Collin (1912) defendeu.
Back to Basics: Gerastos oehlerti, the one and only!
Pertencerão realmente os espécimes de Bayle (1878) a espécies – e até subgéneros – distintos? Uma análise recente do material permitiu reavaliar esta separação e perceber até que ponto algumas das diferenças apontadas por Pillet (1969) são taxonómicas ou resultam simplesmente da preservação.
Os exemplares que Pillet (1969) atribuiu a G. oehlerti e G. “baylei” foram recolhidos na mesma localidade. Em G. “baylei”, o autor reconheceu tubérculos na glabela e três sulcos laterais pouco profundos, por oposição à ausência de tuberculação e à presença de apenas dois sulcos no lectótipo de G. oehlerti (Pillet, 1969, est. 16, figs 1–8). Contudo, a reanálise do material mostra que estas diferenças resultam do estado de preservação. Também a aparente diferença na forma da glabela é preservacional: o lectótipo de G. oehlerti encontra-se ligeiramente enrolado e comprimido, o que lhe confere um aspeto mais largo. Do mesmo modo, as pontas genais não estão preservadas, pelo que a sua ausência não pode ser considerada uma característica morfológica, ao contrário do sugerido pelo autor (Pillet, 1969, p. 628).
O pigídio não resolve o problema. O próprio Pillet (1969) reconheceu não poder excluir a possibilidade do exemplar atribuído a G. oehlerti pertencer, na realidade, a G. “baylei”, distinguido os dois com base na forma trapezoidal, segmentação, ausência de um sulco no bordo e presença de tubérculos. Uma vez mais, a forma, o sulco marginal e a ornamentação são fortemente condicionados pela preservação.
Também a segmentação se revela um critério pouco fiável. Os sulcos entre os anéis e os sulcos pleurais são pouco profundos e difíceis de distinguir, levando diferentes autores a diferentes contagens: Oehlert (1886) reconheceu em G. oehlerti seis anéis e quatro costilhas pleurais; Pillet (1969), sete anéis e seis costilhas; e, em P. (P.) “aff. baylei”, oito anéis e cinco costilhas. Mais do que traduzirem diferenças taxonómicas, estas discrepâncias parecem refletir diferentes interpretações de estruturas mal preservadas.
As diferenças que sustentavam a separação das três formas deixam, assim, de se sustentar. G. baylei Pillet, 1969 e Proetus (Proetus) aff. baylei Pillet, 1969 deverão ser considerados sinónimos juniores de G. oehlerti. O material original de Bayle (1878), separado quase um século depois em diferentes taxa, volta assim a reunir-se numa única espécie: Gerastos oehlerti (Bayle, 1878).
Ocorrência e implicações cronoestratigráficas e paleobiogeográficas de Gerastos oehlerti em Portugal
A história de Gerastos oehlerti não se ficou por França. Em Portugal, a espécie é conhecida há mais de um século, embora tenha acompanhado as sucessivas mudanças de nome: foi referida como Proetus oehlerti Bayle, 1878 por Delgado (1908) e Pruvost (1914), e mais tarde como Proetus (Proetus) oehlerti por Rodríguez-Mellado & Thadeu (1947) e Perdigão (1967, 1974). Recentemente, Caprichoso et al. (2026) reavaliaram este material, confirmando a sua atribuição ao género Gerastos.
E é aqui que os exemplares portugueses se tornam particularmente interessantes. G. oehlerti ocorre em várias localidades do Sinclinal de Portalegre, tanto no Lochkoviano da Formação São Mamede como no Emsiano superior-Eifeliano inferior da Formação Porto da Espada (Figura 3).
Figura 3. Gerastos oehlerti (Bayle, 1878) representado por espécimes do Museu Geológico de Portugal (LNEG), provenientes da Formação São Mamede (molde externo em látex) e da Formação Porto da Espada (moldes internos).
E isso muda a história da espécie. Em França, G. oehlerti é conhecida em várias localidades da Manche, Sarthe, Mayenne, Ille-et-Vilaine e Finisterra, em níveis atribuídos ao Praguiano, Emsiano e Eifeliano; as referências ao Givetiano e Frasniano permanecem duvidosas. Os exemplares da Formação São Mamede fazem, portanto, recuar o registo mais antigo conhecido de G. oehlerti do Praguiano para o Lochkoviano.
Mas Portugal não acrescenta apenas tempo à história de G. oehlerti: acrescenta também geografia. A sua presença no Sinclinal de Portalegre aproxima este registo das faunas devónicas francesas, em particular das do Maciço Armoricano, reforçando uma ligação paleobiogeográfica já reconhecida noutros grupos. Afinidades semelhantes foram identificadas por Gourvennec et al. (2010) e Schemm-Gregory & Piçarra (2013) a partir das associações de braquiópodes e crinoides portuguesas e das suas relações com faunas de várias regiões europeias e norte-africanas, incluindo o Maciço Armoricano.
Quase 150 anos depois de Bayle lhe ter dado um nome, os velhos exemplares portugueses ajudam, assim, a contar uma história nova: Gerastos oehlerti é mais antiga (adoramos superlativos!) – e a sua história paleobiogeográfica mais ampla – do que o seu registo francês fazia supor.
Agradecimentos
A autora gostaria de expressar o seu agradecimento a Sofia Pereira (Centro de Geociências da Universidade de Coimbra, Portugal) e a David Holloway (Museums Victoria, Austrália), por todo o apoio prestado.
Este estudo é financiado através da Fundação para a Ciência e a Tecnologia, I.P. (Portugal), no âmbito da bolsa de doutoramento DOI: 10.54499/2020.04528.BD e do projeto estratégico UID/00073/2025, UID/PRR/00073/2025 e UID/PRR2/00073/2025 da Unidade de I&D Centro de Geociências (Universidade de Coimbra – Portugal).