Dia Nacional do Fóssil

15 Outubro 2021

Nesta data celebra-se o Dia Internacional do Fóssil, uma iniciativa da International Palaeontological Association.

A SPdP Sociedade Portuguesa de Paleontologia assinala e celebra já este ano o Dia Nacional do Fóssil [15 de Outubro] com o lançamento da versão final do nosso logotipo, e de um texto da autoria de Sofia Pereira (Direção da SPdP) sobre o Tylostoma, o fóssil incluido no design, e Daniel Sharpe, o paleontólogo que o descreveu.

Versão Final - Logotipo da SPdP

O nosso logotipo integra um exemplar de Tylostoma figurado por Daniel Sharpe na sua publicação de 1849, o primeiro género nomeado com base num fóssil português.

Sharpe, D. (1849). On Tylostoma, a proposed genus of gasteropodous mollusks. Quarterly Journal of the Geological Society, 5(1-2), 376-380.

Logotipo desenvolvido em colaboração com o designer Filipe Barreira (LNEG).

Daniel Sharpe, o género Tylostoma e a Paleontologia portuguesa: uma biografia (lusitanamente) enviesada

Mas afinal, quem foi o Daniel Sharpe? De uma forma simplificada, poderia dizer-se que foi um comerciante inglês que viveu esporadicamente em Portugal durante a década de 1830 e que é, a bem dizer, um pai da geologia portuguesa e, usando palavras de Rui de Serpa Pinto1 (1907-1933), outro que não o que dá o nome a ruas, fundador da paleontologia portuguesa. Mas recuemos na história, que é o que nós paleontólogos mais gostamos de fazer.

Do nascimento à chegada a Portugal

Daniel Sharpe nasceu no centro de Londres, no nº 1 da Praça Nottingham (Marylebone), a 6 de abril de 18062. Era o mais novo de quatro filhos (há quem fale em cinco e há quem fale em seis) de Sutton Sharpe (1756-1806), um cervejeiro londrino proveniente de uma família que fabricava agulhas, e de Maria Rogers Sharpe (?-1806), filha de um conhecido banqueiro e irmã do poeta Samuel Rogers (1763-1855). A vida de Daniel começou e terminou de forma trágica. Felizmente para nós, as coisas pelo meio correram melhor. Com apenas duas semanas de vida, Daniel ficou órfão de mãe, a qual adoeceu após o seu parto2. Este triste acontecimento virou poema pela mão do tio, que recordou a irmã perdida em “Human Life: a Poem” (1819) 3:

“Such grief was ours - it seems but yesterday -

When in thy prime, wishing so much to stay,

'Twas thine, Maria, thine without a sigh

At midnight in a Sister's arms to die!

(…)

Thou diedst a victim to exceeding love,

Nursing the young to health."

Quatro meses após a morte da mãe, faleceu o pai, tendo Sharpe sido criado por uma meia-irmã (única filha do primeiro casamento do seu pai), Catherine, que dedicou toda a sua juventude a criar os irmãos órfãos2. E fê-lo de forma irrepreensível, pois todos se tornaram homens respeitáveis na sociedade inglesa do século XIX. Destes, além de Daniel, destaca-se Samuel Sharpe (1799-1881), que se tornou conhecido pelas suas contribuições para a egiptologia e tradução bíblica, e cuja atenção recebida por biógrafos permitiu que a maioria das informações que se seguem chegassem aos dias de hoje2.

Aos 16 anos, Daniel Sharpe começou a trabalhar juntamente com o irmão Henry num escritório de finanças de um comerciante português, o Sr. Van Zeller, em Londres. Sim, sei que não é a forma mais romântica para o começo da geologia e paleontologia portuguesas, mas não podemos mudar a história. Exceto quando inferimos narrativas descabidas para a vida do passado, coisa que nós os paleontólogos adoramos fazer. Em 1829, os dois irmãos criaram uma empresa em Pinners Hall, que posteriormente se mudou para Broad Street Buildings e finalmente para o nº 108 da Fenchurch Street, sempre em Londres, onde rapidamente se tornou uma das casas principais do comércio português. Felizmente, o Brexit só chegou 190 anos depois, ou os projetos dos irmãos Sharpe teriam ido por água abaixo. Finalmente, com 25 anos, no início da década de 1830, Sharpe vem mesmo para Portugal, em plena guerra civil, onde juntamente com o irmão gere uma casa comercial.

Daniel Sharpe (1806 - 1856).Retrato de Maull & Polyblank, 1856.
Daniel Sharpe (1806 - 1856).Retrato de Maull & Polyblank, 1855.

De comerciante a geólogo e paleontólogo

Daniel Sharpe nunca casou. Segundo quem o conheceu, os seus gostos eram estritamente científicos2 (muito se poderia dizer quanto a este tema!). E embora fosse tão diligente nos negócios como os irmãos mais velhos, conseguiu encontrar tempo para se dedicar ao estudo da geologia. O seu primeiro trabalho científico oficial foi paleontológico, a preparação e estudo de um fóssil de ictiossauro (sim, todos temos um passado sombrio) que apresentou à Sociedade Geológica de Londres em 18314. Segue-se-lhe a geologia portuguesa. A 11 de abril de 1832, Daniel Sharpe apresentou à mesma sociedade a primeira comunicação sobre a geologia da região de Lisboa e do Porto5. Estes trabalhos pioneiros seriam anos depois completados6,7 com os muitos dados estratigráficos e materiais paleontológicos que Sharpe foi coletando em Portugal, sobretudo entre 1835 e 1838, período durante o qual viveu em Lisboa2. Cada vez mais geólogo e menos comerciante, e já de regresso ao Reino Unido, mas com vindas intermitentes a Portugal durante a década de 1840, Sharpe dedicou-se ao Silúrico do Lake District, à cronostratigrafia do calcário de Bala e à geologia do sul de Westmoreland e do norte do País de Gales. Mas retornaria à paleontologia portuguesa.

Tylostoma, o primeiro género de fósseis definido em Portugal

Em meados da década de 1840, Daniel Sharpe cruzou-se com o engenheiro (e geólogo) Charles Bonnet (1816-1867), um francês que terá vindo para Portugal entre 1844 e 1846 para o estudo da geologia do Algarve. Esta vinda terá sido a convite do Conde de Farrobo (1801-1869)1, proprietário da Companhia Farrobo e Damásio, concessionária de várias minas de carvão no país, e que hoje é conhecido pela expressão “farrobodó” (entretanto atrapalhadamente alterada para “forrobodó”, que a língua tem destas coisas). Bonnet terá fornecido a Sharpe informações geológicas sobre a região de Buarcos (Figueira da Foz) e foi assim que chegámos a 1849, ano em que Sharpe publica no “Quarterly Journal of the Geological Society of London” um trabalho8 (que podem consultar aqui, p.376) onde estabelece um novo género de gastrópode marinho (vulgo búzio): o Tylostoma. Este é o primeiro género nomeado com base num fóssil português. E por esse motivo, por nos ser tão especial, por ser o filho morgado daquele que foi um pai, foi selecionado como logotipo da SPdP. A etimologia do nome provém de τύλος týlos (grego) = calosidade + στόμα stóma (grego) = boca.

Neste trabalho, Sharpe considerou que as conchas de Tylostoma, de forma globosa ou ovoide, com espira moderadamente elevada, são “muito abundantes em Portugal nos níveis de calcários do Cretácico” e que “constituem um guia muito útil para os geólogos naquele país”. Formalizou quatro espécies: T. torrubiae, T. punctatum (atualmente atribuída a outro género), T. globosum e T. ovatum. Os materiais estudados provêm dos arredores de Coimbra (Condeixa, São Facundo, Sarjento-mor, Montemor-o-Velho, Figueira da Foz), Aveiro (Mamarosa) e Lisboa (Alcântara e Praia das Maças, Sintra), de níveis atualmente atribuídos ao Cenomaniano médio e superior (Cretácico).

As ilustrações dos fósseis de Tylostoma, feitas pelo famoso mineralogista, botânico e ilustrador britânico James de Carle Sowerby (1787-1871) – não confundir com o seu pai, James Sowerby (1757-1822), também naturalista, mineralogista e ilustrador – foram publicadas numa única estampa (a número IX daquele volume). Entre estas, a figura 5, ilustração de um espécime de Tylostoma globosum, foi a escolhida pela SPdP para logotipo.

Embora descrito originalmente em Portugal, hoje o género Tylostoma é conhecido no Mesozoico da Europa meridional, América do Sul, África e até no Cáucaso. Para os mais curiosos, podem saber (quase) tudo sobre o género Tylostoma neste trabalho de Pedro Callapez e António Ferreira Soares9.

O auge científico, a colaboração com Carlos Ribeiro e a morte inesperada

Um ano após a publicação do género Tylostoma, Sharpe publicou outro trabalho dedicado novamente a “um búzio velho”, desta vez o conhecido género Nerinea10. No mesmo ano, deu a conhecer um importante trabalho sobre a geologia dos arredores do Porto, onde publicou um primeiro esboço do Anticlinal de Valongo e definiu várias espécies de invertebrados do Ordovícico (sobretudo braquiópodes).

Numa altura em que o britânico vivia já permanentemente em Londres, começou a ganhar notoriedade, dedicando-se sobretudo a estudos de clivagem e deformação das formações rochosas, à geologia dos Alpes, ao estudo de cefalópodes fósseis e a atividades de gestão da Sociedade Geológica de Londres (nota-se muito que na década de 1850 ainda não havia internet, nem redes sociais, nem chamadas zoom?!). Por esta altura, entra em cena outro dos pais da geologia portuguesa, Carlos Ribeiro (1813-1882). Dá-se a última mas muito importante colaboração de Sharpe na geologia e paleontologia portuguesas, o mote para o início dos estudos estratigráficos sensu stricto em Portugal. Ribeiro foi contratado em 1849 (novamente) pela Companhia Farrobo e Damásio (muito farrobodó nos primórdios da paleontologia portuguesa), para estudar a geologia da região de Santa Cristina, no Buçaco e avaliar o potencial da exploração de carvão. É assim que surge uma primeira publicação em 1850, no Jornal “O Atheneu”11, que dá a notícia de que “o Sr. Carlos Ribeiro está a reconhecer todas as formações geológicas do Buçaco”, quer “publicar uma memória” e que se “lembrou de consultar o sir Daniel Sharpe”, na altura já vice-presidente da Sociedade Geológica de Londres. Carlos Ribeiro tinha escrito a primeira carta a Sharpe em novembro de 1850, à qual ele respondeu em menos de um mês, a 12 de dezembro de 1850. Reparem que em Portugal estamos num período no qual a correspondência ainda funcionava por carreiras da mala-posta, puxadas por uma parelha de cavalos. E ainda assim, um mês depois, já cá estava a resposta de Daniel Sharpe (a perdermos o alibi dos atrasos nas respostas aos emails em três, dois, um…). Segue-se uma troca de correspondência entre ambos e o envio de uma coleção de fósseis do Paleozoico do Buçaco para Daniel Sharpe, informação que sabemos não só pela publicação em que culmina esta colaboração12, mas porque estas cartas foram publicadas no primeiro número do Jornal “O Instituto”, em 1853 (bons os tempos em que a geologia era tão importante para se publicarem cartas pessoais discutindo-a ali, lado a lado com temas tão fulcrais da sociedade do século XIX como o divórcio14). E assim, um ano depois do envio dos fósseis, é publicado o resultado deste importante trabalho, no “Quarterly Journal of the Geological Society of London”13, em colaboração com outros paleontólogos ingleses, onde são definidas várias espécies novas de invertebrados paleozoicos.

O que aconteceu depois a todos estes fósseis portugueses, incluindo os de Tylostoma e vários outros espécimes-tipo? Permaneceram com Daniel Sharpe em Londres, o qual, em fevereiro de 1856, foi eleito Presidente da Sociedade Geológica de Londres. Porém, menos de três meses depois, sofre uma queda a cavalo e morre a 31 de maio. Não chegou sequer a pronunciar o discurso de tomada de posse. Com a morte de Daniel Sharpe, os fósseis passam para a alçada da sociedade que ele presidia, a qual transfere a coleção para o Museu de História Natural de Londres em 1911, onde ainda hoje permanecem.

Daniel Sharpe nas palavras de quem o conheceu

Num discurso emotivo, o Coronel Portlock (1794-1864), um conhecido geólogo britânico a quem coube a missão de apresentar postumamente um trabalho de Daniel Sharpe sobre a estrutura geológica dos Alpes, disse: “esforcei-me assim por fazer justiça, embora imperfeitamente, ao trabalho de Daniel Sharpe, e apenas acrescentarei que o seu humor tranquilo, a sua afirmação humana e direta da verdade, e a sua bem conhecida generosidade e benevolência cativaram-no como amigo, enquanto o seu discernimento astuto, a sua observação precisa, e o seu vasto conhecimento nos fizeram admirá-lo como filósofo e geólogo"2. Testemunho semelhante foi dado pelo conhecido astrónomo Lord Wrottesley (1798-1867), presidente da Royal Society à morte de Sharpe que, após enumerar as contribuições de Daniel Sharpe para a ciência, concluiu com estas palavras: “um homem cuja mente igualmente poderosa, ativa e bem cultivada o incitava a compreender e a fazer o seu próprio sucesso, numa gama mais ampla de assuntos do que muitos geólogos se atrevem a tentar. Também não se deve olvidar que durante todo esse tempo ele estava incessantemente ocupado em atividades comerciais e foi somente durante breves intervalos de lazer, quando os trabalhos mais imperativos terminavam, que ele conseguiu realizar o que muitos considerariam trabalho suficiente para as suas vidas. E não é somente em Geologia que ele é conhecido e apreciado; filólogos e etnólogos igualmente o estimam. Com uma maravilhosa versatilidade de talentos, ele batalhou com antigas inscrições em liciano (…) e revelou os segredos de uma língua desconhecida, escrita em carateres desconhecidos. No debate, ele era claro, aguçado, severamente crítico e às vezes sarcástico, ocasionalmente alarmante para um adversário não acostumado ao seu estilo; mas aqueles que o conheciam melhor estavam bem cientes de que um fundo invariável de bom-humor estava sempre por trás e que, se ele ‘batesse’ forte num adversário seu, nenhum homem mais do que ele se regozijava com um golpe mais duro em troca. A sua vida privada estava cheia de benevolência sem ostentação. Em conversa com os seus familiares, ele era inteligente, vivo e rápido na perceção, e os seus amigos do Clube Geológico, do qual ele recentemente se tornou presidente em virtude de seu cargo como chefe da Sociedade, irão lamentar a sua perda, e ter saudades do seu humor peculiar e risos silenciosos que tantas vezes ajudaram a animar sua diretoria.”2

Curiosidades

Na senda da produção desta biografia, surgiu uma dúvida fraturante da paleontologia portuguesa: como se pronuncia afinal o nome Tylostoma? Embora trabalhemos com o passado, não podemos perguntar ao Daniel Sharpe como gostaria que o disséssemos. Perguntámos por isso a três paleontólogos que costumam lidar com este epíteto genérico: Pedro Callapez (U. Coimbra), Maria Helena Henriques (U. Coimbra) e Carlos Marques da Silva (U. Lisboa). O Pedro e a Maria Helena pronunciam-no como palavra grave (ti-los-tô-ma), mas o Carlos opta pela forma esdrúxula (ti-lós-to-ma). O mundo pode agora dividir-se nas pessoas que dizem desta ou daquela forma…mas com a certeza de que não seria de nenhuma destas maneiras que Daniel Sharpe, ainda que fluente em português, pronunciaria o nome do primeiro género fóssil formalizado em Portugal.

Sofia Pereira (Direção da SPdP)

Outubro de 2021

Referências

1 Serpa Pinto, R. de (1932). Daniel Sharpe e a geologia portuguesa. Anais da Faculdade de Ciências do Porto, 17, 193-203.

2 Clayden, P. W. (1883). Samuel Sharpe: Egyptologist and Translator of the Bible. London, Kegan Paul.

3 ROGERS, S. (1819). Human Life. A Poem. London, Bensley and Son for John Murray.

4 Sharpe, D. (1934). Description of a New Species of Ichthyosaurus. Proceedings of the Geological Society of London, 1, 221-222.

5Sharpe, D. (1834). On the strata in the immediate neighbourhood of Lisbon and Oporto. Proceedings Geological Society of London, 1, 394-396.

6 Sharpe, D. (1841). On the geology of the neighbourhood of Lisbon. Transactions of the Geological Society London, s. 2, 6, 107-133.

7Sharpe, D. (1849). On the Geology of the neighbourhood of Oporto, including the Silurian Coal and Slates of Vallongo. Proceedings of the Geological Society, 5, 142-153.

8 Sharpe, D. (1849). On Tylostoma, a proposed genus of gasteropodous mollusks. The Quarterly Journal of the Geological Society of London, 5, 20, 376-380, pl. 9.

9Callapez, P. M., & Soares, A. F. (1991). O género Tylostoma Sharpe, 1849 (Mollusca, Gastropoda) no Cenomaniano de Portugal. Memórias e Notícias do Museu e Laboratório Mineralógico e Geológico da Universidade de Coimbra, 111, 169-182.

10Sharpe, D. (1849b): Remarks on the genus Nerinea, with an account of the species found in Portugal. Quarterly Journal of the Geological Society of London, 6, 101-115.

11Ribeiro, C. (1850). Estudos geológicos do Bussaco. O Atheneu, 52, 410-412.

12Costa Simões, A.A. 1853. Os banhos de Luso. Notícia topographica e geologica da serra do Buçaco. O Instituto, 1, 5-6.

13 Ribeiro, C. (1853). On the Carboniferous and Silurian Formations of the neighbourhood of Bussaco in Portugal. Quarterly Journal of the Geological Society of London, 9, 135-161.